Dificuldade para manter a atenção, procrastinação, esquecimentos frequentes, desorganização, impulsividade e dificuldade para terminar tarefas podem aparecer no TDAH. Mas também podem ocorrer em diversas outras situações.
Por isso, identificar alguns sintomas em si mesmo, preencher um questionário na internet ou se reconhecer no relato de alguém com TDAH não é suficiente para estabelecer o diagnóstico.
O diagnóstico do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade é clínico e envolve uma avaliação cuidadosa da história do paciente, dos sintomas atuais, do funcionamento ao longo da vida e de outras condições que possam explicar as dificuldades apresentadas.
O que o médico avalia para diagnosticar TDAH?
Atualmente, os critérios diagnósticos mais utilizados são os estabelecidos pelo DSM-5-TR, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
Os sintomas são divididos em dois grandes grupos: desatenção e hiperatividade/impulsividade.
Em crianças com menos de 17 anos, são necessários pelo menos seis sintomas de desatenção e/ou seis sintomas de hiperatividade e impulsividade. A partir dos 17 anos e na vida adulta, o número mínimo é de cinco sintomas.
A quantidade de sintomas, porém, é apenas uma parte da avaliação.
Para que o diagnóstico seja estabelecido, eles precisam persistir por pelo menos seis meses, alguns sintomas devem ter estado presentes antes dos 12 anos e as dificuldades precisam aparecer em dois ou mais contextos da vida, como casa, escola, faculdade, trabalho ou relacionamentos.
Outro aspecto fundamental é o prejuízo funcional. Uma pessoa pode apresentar algumas características de desatenção ou impulsividade sem necessariamente ter TDAH. Para o diagnóstico, é necessário avaliar se esses sintomas realmente interferem de maneira significativa no funcionamento acadêmico, profissional, social ou pessoal.
Por que é importante investigar a infância?
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento. Isso significa que ele não começa subitamente na vida adulta.
Uma pessoa pode receber o diagnóstico somente aos 25, 35 ou 50 anos, por exemplo, mas a avaliação deverá investigar se já existiam manifestações compatíveis com o transtorno durante seu desenvolvimento.
Isso nem sempre significa que a pessoa tenha recebido reclamações explícitas de professores ou apresentado baixo desempenho escolar. Algumas crianças conseguem compensar parte das dificuldades por meio de inteligência, estrutura familiar, esforço excessivo ou ambientes muito organizados.
Na avaliação de adultos, portanto, o psiquiatra procura reconstruir essa história. Quando possível, informações de familiares que conhecem o paciente há muitos anos, boletins escolares, avaliações antigas e outros registros podem ajudar.
Questionários e escalas diagnosticam TDAH?
Não.
Instrumentos como a Adult ADHD Self-Report Scale (ASRS) podem ser úteis durante a investigação. Eles ajudam a organizar sintomas, identificar pessoas que precisam de uma avaliação mais aprofundada e acompanhar a evolução clínica.
Mas uma pontuação elevada em uma escala não significa, isoladamente, que uma pessoa tenha TDAH.
O resultado precisa ser interpretado dentro da história clínica e em conjunto com os demais elementos da avaliação.
Preciso fazer avaliação neuropsicológica para diagnosticar TDAH?
Na maioria dos casos, não.
A avaliação neuropsicológica pode fornecer informações importantes sobre funções cognitivas, perfil de aprendizagem, memória, atenção e outros aspectos do funcionamento do paciente. Em determinadas situações, ela pode ser bastante útil para esclarecer o caso.
Entretanto, não existe um perfil neuropsicológico capaz de confirmar ou excluir TDAH sozinho, e as evidências disponíveis não sustentam a necessidade de testes neuropsicológicos de rotina para estabelecer o diagnóstico.
Portanto, uma pessoa pode ter TDAH mesmo apresentando bom desempenho em determinados testes de atenção, assim como uma alteração em um teste cognitivo não significa necessariamente que ela tenha o transtorno.
Existe algum exame que confirme TDAH?
Até o momento, não existe exame de sangue, exame de imagem, teste genético ou outro biomarcador capaz de confirmar ou excluir TDAH individualmente com precisão suficiente para uso diagnóstico.
Exames complementares podem ser solicitados quando existe uma indicação clínica específica, principalmente para investigar outras condições que possam estar contribuindo para os sintomas. Eles não funcionam, porém, como um “exame para TDAH”.
Nem toda dificuldade de atenção é TDAH
Essa é uma das partes mais importantes da avaliação.
Problemas de concentração, memória, organização e produtividade podem aparecer em diversas condições. Transtornos de ansiedade e do humor, alterações do sono, uso de substâncias, outros transtornos do neurodesenvolvimento e determinadas condições clínicas podem produzir sintomas que se parecem com TDAH.
Além disso, o TDAH frequentemente ocorre junto a outros transtornos. Portanto, a investigação não consiste apenas em decidir se o paciente “tem ou não tem TDAH”. É necessário compreender o conjunto do quadro clínico e identificar quais fatores estão contribuindo para as dificuldades daquela pessoa.
Como é uma consulta para investigação de TDAH?
A avaliação costuma envolver uma entrevista clínica detalhada sobre os sintomas atuais e sua repercussão na rotina, além da investigação da infância e adolescência, desempenho escolar e profissional, relacionamentos, organização da vida cotidiana, histórico familiar, desenvolvimento, sono, uso de substâncias e antecedentes médicos e psiquiátricos.
Dependendo do caso, podem ser utilizados questionários padronizados e solicitadas informações complementares de familiares ou outras pessoas que conheçam bem o paciente.
Em alguns pacientes, o diagnóstico pode ficar claro durante a avaliação clínica. Em outros, pode ser necessário acompanhar a evolução, obter informações adicionais ou investigar diagnósticos diferenciais antes de chegar a uma conclusão.
Esse cuidado é importante porque o objetivo de uma boa avaliação não é apenas atribuir um diagnóstico. É entender o que explica os sintomas e prejuízos apresentados por aquela pessoa para, a partir disso, definir a conduta mais adequada.
Quando procurar uma avaliação?
Se dificuldades persistentes de atenção, organização, impulsividade ou gerenciamento da rotina estão causando prejuízo no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou em outras áreas importantes da vida, uma avaliação especializada pode ajudar a entender a origem desses sintomas.
O diagnóstico adequado de TDAH exige mais do que reconhecer uma lista de características. Ele depende da análise da história de desenvolvimento, da intensidade e persistência dos sintomas, dos prejuízos associados e da exclusão de outras explicações possíveis.
Referências
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